sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

So Close yet So Far


Ontem à noite ouvi alguém a chorar no meu prédio. Até aí, nada de especial. O problema é que não era um choro normal: era um choro gritado, sentido, atormentado, de cortar o coração, que ultrapassava as barreiras dos andares, das paredes, do cimento e do tijolo, e que ecoava indistintamente um pouco por todo o lado. Tirei o som à televisão e fiquei ali parada, a ver se percebia de onde vinha, que angústia enorme provocaria tamanha dor. Ainda estive para sair de casa e ir à procura da pessoa em causa, mas depois pensei “E depois? Não a conheço. Vou fazer o quê, bater à porta e perguntar o que se passa? Ainda pensam que estou a bisbilhotar.

Devolvi o som à televisão, voltei à minha vida (coisa que me pareceu a maior falta de respeito do mundo) e fiquei a noite toda a pensar nesta coisa das cidades - e no estranho que é vivermos tão próximos mas tão distantes de quem nos rodeia.

11 comentários:

Conto de Fadas disse...

Eu faria o mesmo... mas estamos erradas.

Olhó Mau Feitio disse...

Eu iria ver se estava alguém a chorar fora de casa mas dentro do prédio. Acho eu... nunca estive perante um caso desses.

Olho Azul disse...

Eu não sei o que faria.
Cada vez mais as pessoas, parecem mais distantes das que as rodeiam. É a sociedade em que vivemos! Despreocupada e alheia aos problemas dos outros. Por vezes é preciso haver divulgação na comunicação social, de algum caso trágico, para a população se mover em solidariedade.

Lipa Maria disse...

já me aconteceu. até escrevi sobre isso no meu blog http://singularidadeslipamaria.blogspot.com/2010/03/sem-comentarios.html

porque é realmente qlq coisa que mexe muito connosco. Mas talvez por não ter crescido numa cidade e porque sempre vi os meus vizinhos como mais do que alguém que mora ao lado, não continuei a ver televisão...

Mary disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mary disse...

Para dizer a verdade, confesso que tive alguns motivos para não fazer nada: estava sozinha em casa com os meus filhos, não era um choro de dor ou aflição ("apenas" de tristeza profunda) e percebi que a pessoa estava acompanhada, na medida em que ouvia vozes pelo meio.

Ainda assim, terei agido bem? Estaremos certos em vivermos assim, sem sabermos quem está mesmo ao nosso lado? Não creio.

girl joy disse...

Eu não sei o que faria!! Mas também já chorei assim e ninguém veio ter comigo! Infelizmente a desconfiança bloqueia as pessoas! :(

menina lamparina disse...

É realmente estranho que nos tenhamos tornado numa sociedade tão massificada e ao mesmo tempo, paradoxalmente, composta por indivíduos solitários. Somos um todo de pessoas sozinhas, no fundo.
Não sei o que mais haveria para fazer. Provavelmente também não me sentiria confortável indo bater à porta... poderia parecer mais intrusa que preocupada.
Muitas vezes bloqueio por não querer invadir a privacidade alheia... se a pessoa em causa estava acompanhada, ainda faria menos sentido ir até lá.

Beijinho*

Turista disse...

Mary, que angustiante!! Imagino como deves ter ficado o resto da noite...
Se por aqui as pessoas se tentam sempre ajudar umas às outras, com dicas, informações...
Se quando alguém está mal, enviamos um abraço ou um beijinhos, porque não fazê-lo na vida real?
Eu avanço logo, pergunto se posso ajudar. Mas talvez o faça porque a idade já me o permite fazer, já não tenho vergonha, nem receios que levem a mal...
Talvez o faça porque é do meu feitio!

Mónica disse...

mary, curioso, mas nao acho nada teu nao teres ido bater à porta. deves estar afectadissima com isso porque essa contenção e a generosidade que há em ti nao se coadunam. espero que nao aconteça mais, a bem da fte do choro

Vespinha disse...

Não sei o que faria. Mas sei que se fosse eu a estar em casa, a chorar por exemplo pela morte de um ente querido, não quereria de modo nenhum que me batessem à porta... tal como não gosto que me vejam a chorar na rua, com medo que me abordem... a tristeza é difícil de explicar a um desconhecido.